Versículos do Homem


POR TERRAS DO TEMPO E DA SAUDADE

Ë

 

 

Recorta-se, em cartas geográficas recentes, como um triângulo de base virada ao Mar Vermelho, penetrando o Djibuti e o Sudão, espreitando a Somália pelo vértice alongado do sudoeste e tendo, para lá do estreito mar, a visão de sonho da costa oeste da Arábia Feliz, ou Iemen, em cujas montanhas, a norte de Sana, ao tempo dos templários, se iniciavam os cavaleiros de negro e branco que tinham no velho da montanha o seu mestre vivo.

            Ex-província da Etiópia, do lendário Negus, chama-se Eritreia, tem o tamanho de Portugal e é um deserto pedregoso onde Portugal é verde e verde onde o nosso país o não é.

            Aqui, onde as mulheres têm as faces doiradas e os homens, que deambulam sem cessar, são poetas e são filósofos que se aconselham com a natureza nos altos cumes,  se situou a reino da bíblica Rainha de Sabá.

            Má memória gravaram nas pedras e nas gentes das nove tribos turcos e jesuítas; marcas de alma, que são as línguas e são os credos, deixaram os muitos que aqui passaram ¾ em armas ou pacificamente ¾ e daí os muitos falares, que vão do árabe ao italiano, passando pelo aramaico (a presumida língua de pregação de Jesus), e a pluralidade religiosa, onde  o islamismo e o cristianismo são preponderantes.

            O feriado religioso não é nem o Domingo cristão nem o Sábado muçulmano, mas a Quarta-feira, onde é comum a partilha do pão entre os dirigentes das várias confissões cristãs e islâmicas.

            Foi esta convivência pacífica ¾ que permite a existência de casamentos inter-religiosos ¾ que espantou ao tempo Pêro Vaz de Caminha e Cristóvão da Gama, quando por aqui andaram em busca do Prestes João.

                E o mais estranho de tudo, nesta terra onde as pessoas preferem louvar a divindade ao ar livre, é que aqueles portugueses puderam assistir a missas católicas, celebradas por padres católicos,  no interior de mesquitas e de igrejas coptas.

 



Escrito por Abdul Cadre às 21h31
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FALANDO DE DEUS PARA ACICATAR O DIABO

Que incomodativos são os catequistas das escrituras de haver Deus!
Que incomadativos iguais são os catequistas das outras escrituras de não haver!
Que indecorosos são os que imaginam Deus à imagem e semelhança do Grande Ditador a quem aplaudem!
Que venais nos parecem os que negam Deus para melhor combaterem o Grande Ditador e os que lhe batem palmas!
 
Quatro exclamações sentidas para o desejo de dizer que uma das discussões mais ociosas que se pode ter é, de um lado, querer provar que Deus existe e do outro, o diametralmente oposto. Houve até um anarquista famoso que se deu ao luxo de publicar um opúsculo intitulado DOZE PROVAS DA INEXISATÊNCIA DE DEUS. A sua ideia, julgada definitiva, caiu rapidamente em desuso porque alguns padres perspicazes pegaram na coisa com jeito e deram-lhe a volta, pois que as teses que negavam serviam precisamente, quase sem tirar nem pôr, para afirmar.
 
Ao usar o termo discussão, estou a lembrar-me da sua etimologia, que significa sacudir. Tenha a árvore fruto que, bem sacudida, algum há-de cair; mas, se ela é apenas ornamental, caem folhas e mais nada. Quando dois dialogantes se sacodem ociosamente, o resultado é invariavelmente nulo e leva o estafado ponto final: ficas com a tua que eu fico com a minha, postergando-se o conversável. É assim, sempre que o umbigo se usa na testa. Desta forma, o crente olha o incréu com o pior olhar de atirar ao cão e o ateu põe-se em bicos dos pés para parecer mais alto do que a própria inteligência; empertigado, olha com comiseração o pobre imbecil que acaba de inventar ali em baixo, para sua própria glória mais acima.
 
Seria tão bom, entre os dois, plantar um racional para lhes fazer ver que ambos afirmam o que não provam e negam o que não sabem!
 
O resto é falar da batota dos argumentos. Por exemplo: pretender que os crentes, além de tontos, são ignorantes. Ora, tendo Einstein sido um crente é forçoso que se imagine um não-crente como um super-Einstein. Então, que venham as obras, que de paleio todos temos a nossa conta. Uma outra batota comum é usar-se e abusar-se da frase, não só descontextualizada, mas sobretudo amputada, atribuída a Marx de que «a religião é o ópio do povo». Para além do distinto filósofo não ter o monopólio da verdade, a frase não é assim. Corrija-se, pois: «Num mundo sem espírito a religião só pode ser o ópio do povo». Muda tudo, ou não muda? Mas explique-se: a religião -- qualquer religião -- é a tentativa mais ou menos conseguida de institucionalizar a espiritualidade e monopolizar as consciências, dado que as igrejas só podem afirmar-se pela exclusão e tendem a casar-se com o Estado, tornando-se por esta via parte integrante da superestrutura e um instrumento de dominação da classe possidente. Mas o que interessa aqui precisar e desmistificar é o ninho de confusões que se tem estabelecido entre religião e religiosidade com espiritualidade e uma coisa e outra com crença em Deus. Ora, há religiões ateias, v.g., o budismo (na sua génese) e o taoísmo (ainda hoje). Espiritualidade não é o estudo de Deus -- isso seria a Teodiceia -- mas sim dos fenómenos tidos por imateriais. Mas até nisto há que pôr reservas, pois muitos espiritualistas dão grande ênfase ao que disse Madame Blavatsky: «A matéria é espírito cristalizado; o espírito é matéria subtilizada». Da batota teísta sobressai a dos que sublinham as crenças que lhes dão jeito dizendo que se trata da palavra de Deus. Mas crença é isso mesmo: dar crédito a...
 
Crença vale para teístas e vale para ateístas!
 
Deste problema se esgueirou subtilmente o grande filósofo e matemático Bertrand Russel que, não acreditando na existência de Deus, nunca se afirmou ateu -- que isso seria uma forma de crença -- mas tão-só agnóstico!
 
Conheci um indivíduo que, para os militantes ateus, que se pelam por chamar obscurantistas aos crentes, seria com certeza um ignorante. Ele não seguia nenhuma religião em particular, embora fosse próximo do misticismo franciscano, do budismo e do shintoismo. Reflectindo sobre o grande enigma matemático, essa não-coisa que é o ponto, comparava-o com Deus: «Algo sem dimensão que desenhou toda a geometria conhecida...»
 
(A foto é de Isabel Lima e a árvore existe na Ilha do Sal, em Cabo Verde)
 


Escrito por Abdul Cadre às 20h14
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O CAMINHO DOS RIOS

          Toda a conformação das águas, toda a coerência do rio vem-lhe das margens. É por estas que sabemos que o rio não é o mar e que este lhe é destino.

          Margens e rio são dois opostos que mutuamente se justificam na irredutibilidade de duas inércias de sinal contrário: a do movimento e a da imobilidade. Movessem-se as margens e era o caos; parasse o rio e era o pântano...

          Mas há margens e margens! Há as de areia, onde qualquer rio se esvai e esgota; há as de rocha firme, a empurrar as águas sempre mais além; e há até — tantas vezes! — apelos de ir ou de vir em aberturas de novos rios, sempre inventados pelas margens em que os nossos olhos acreditam. Mas no fim surge sempre a imensidão líquida de um destino comum de margens muito para além de todos os limites do olhar, aconchegando o anseio supremo de todos os rios cansados de serpentear.

          Tomemos tudo isso como analogia para as sociedades humanas, cujo caudal segue, dada a aparente inércia do movimento, as rotas repetidas da conformação, enquanto as  suas franjas, as suas margens, os seus marginais e toda a água que se afasta da corrente ousam caminhos outros — de areia ou rocha, pouco importa — com que a mole se horroriza, de que a plebe escarnece, como esconjuro para o medo de quanto contraria a rotina dos dias, que é o pântano insalubre das inércias consentidas.

          Que incómodos são os profetas, as prostitutas, os sonhadores, os drogados, os poetas, os loucos, os sábios e tudo o mais que perturba a sonolência e não deixa que as águas se aquietem!

          Para o bem e para o mal, é da água que transborda da  corrente que se faz a cheia que rompe as margens, galga os diques e leva, muitas vezes, o rio a escolher um novo leito, onde mais uma vez as águas se conformam na coerência de novas margens e de novas inércias.

          Todavia, a paisagem não voltará jamais a ser a mesma.



Escrito por Abdul Cadre às 17h39
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Histórico
28/03/2004 a 03/04/2004




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