PARA ESCONJURAR O MEDO
Unindo e, simultaneamente, dividindo os povos da Terra, muitas e diversificadas são as culturas, mas apesar de algumas serem tão diferentes que se chega a pensar serem inconciliáveis, há algo de comum a todos os homens e a todas as mulheres, qualquer que seja a cultura em que se insiram: o desejo profundo de amarem e serem amados. É esta a raiz da nossa humanidade e é por ela que nos tornamos iguais, saciados e compassivos. Teremos muitas outras características e atributos comuns, que certamente definirão a nossa espécie — por exemplo, o medo —, mas que todavia não nos distinguirão tanto quanto se julgue dos animais que nos são próximos. Descobrir isto na escola da vida, se mais ganho nos não der, dá-nos pelo menos serenidade, pacifica-nos por dentro, faz-nos desejar um mundo materialmente próspero, socialmente justo, humanamente digno; um mundo onde reconheçamos no outro a nossa própria humanidade. Não o conseguimos ainda, mas afinal é isto precisamente que procuramos há milhares de anos. Não o conseguimos porque nos metemos por caminhos e veredas que nos desviaram do destino. Por isso, desembarcámos neste mundo organizado por poucos e para poucos, permitido pela apatia e rendição generalizada, justificado e prometido como sendo para o bem de todos. E este «melhor dos mundos» em que nos desumanizamos quotidianamente não nos deixa ser quem somos, impele-nos ao desejo, não de amar e ser amados, mas de consumir e de lucrar. Trata-se de uma doença grave, de um cancro espiritual: consumir cada vez mais, lucrar cada vez mais, usar o prazer até à anestesia dos sentidos e exaltar os sentidos até à anulação do sentimento. Que lástima! Há quem queira explicar tudo isto com a globalização, usando para tal aquele dialecto sombrio e alienante a que alguns chamam de «economês». Tudo é subsumido à economia e os dogmas desta astrologia sem astros substituíram os dogmas religiosos do passado. Agora há só uma religião, que é o mercado, e maldito seja quem dela não for crente. Há até quem ache que tudo estaria luminoso e ungido não fora a crise. Crise? Qual crise? Aquilo a que chamam crise é um processo de obtenção de lucro como qualquer outro. Como qualquer outro, não, porque este radica numa voragem financeira nunca antes vista. Aliás, só haverá crise se a galinha dos ovos de oiro, de tão depenada e espremida, morrer de exaustão. Aí, nem com uma canjinha podemos contar. Embora verdadeiramente ninguém nos persiga, corremos de um lado para o outro como se fugíssemos. Ou será que é o tempo que nos foge? No nosso morrer de cada minuto, alienamos doze ou mais horas por dia em tarefas que apenas visam a remuneração que nos permita pagar contas e contas e contas, numa rotina robótica que nos corrói a própria natureza e deixa a alma exangue. O uso da violência nos meios de «excitação social» que são os media, medido pelo share e justificado pelo lucro — sempre o lucro! — embota-nos a sensibilidade, aliena-nos a compaixão. Já não somos capazes de sentir como nossas as dores alheias. Entre a crueldade e a apatia agiganta-se a nossa sombra. Não nos indignamos nem pomos objecções a que os nossos líderes promovam guerras para o saque dos recursos alheios. Sabemos que isso é errado, mas pode ser que ajude a pagar as nossas contas. Depois, sossegamos a nossa consciência com o que de conveniência se justifique; os milhares de mortos e estropiados são apenas danos colaterais, gente que estava no lugar errado do tempo certo. Sentimo-nos em desconforto, mas o medo pode ainda muito. Medo de que tudo piore, medo de qualquer mudança, medo de que doa, medo do amanhã, medo do de aqui a instantes. Medo do medo. Por mais que saibamos que não há dragões, o medo de dragões é sempre verdadeiro, não nos deixa caminhar, ata-nos ao chão. ABDUL CADRE
Escrito por Abdul Cadre às 20h07
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A GÉNESE DO OCULTISMO E O PRIMADO DA CIÊNCIA
Antes do aparecimento da ciência experimental e particularmente no período do classicismo grego, toda a ciência era entendida como tendo duas grandes vertentes: - A física - E a metafísica O desenvolvimento e as conquistas sociais e económicas ligadas ao experimentalismo e às aplicações científicas, trouxeram-nos esta época que vivemos, de espantosas tecnologias e dum frio pragmatismo, que veste todo o conhecimento apenas de razão, deixando de fora o coração, donde falar-se muitas vezes duma ciência sem alma nem consciência. De toda a panóplia filosófica do saber pouco mais resta do que uma envergonhada teoria do conhecimento; para a metafísica, não resta espaço nenhum. Para o bem ou para o mal, foi na Renascença que as águas se começaram a apartar e o desdém se foi instalando em relação às digressões metafísicas. Ora, o ocultismo, que guardava ciosamente conhecimentos antigos, os quais os seus veladores entendiam não dever ser do domínio profano, tornou-se também depositário das franjas do saber abandonado. Em abono da verdade se diga que, parte desse saber coube também à Religião. Aqui, entenda-se este paradoxo: trata-se de ocultismo desocultado. Eis porque se diz que o esoterismo, é a metafísica, o segredo, a religiosidade dominada por um número restrito e que a sua contraparte — o exoterismo — é o conhecimento e a religião das massas, a exteriorização do Templo, o que envolve necessariamente a sua profanação. Assim, é compreensível entender-se hoje nos meios ocultistas que subsista para todas as ciências uma metafísica. Desta forma, na alquimia conserva-se a metafísica da física e da química, na astrologia, a da astronomia, etc.… Nos meios ocultistas pretensiosos, que são também os mais obscuros e os mais obscurantistas, é vulgar gabar-se a superioridade dos conhecimentos dessas tertúlias de retórica vã face aos que a ciência reconhecida possui. Perante qualquer descoberta científica, ou avanço tecnológico, há sempre um desses “dotados” que diz: «os ocultistas sempre o souberam!» Quando alguns dos seus devaneios são reprovados pela investigação, pela prática e pela experiência controlada, invariavelmente dizem do alto da sua pretensa superioridade: «os cientistas materialistas não têm capacidade para perceber, mas um dia verão que nós é que estamos certos». Também aquela mãe que foi assistir ao primeiro desfile militar do seu filho, vendo aqueles jovens todos a marchar, exclamava: que vergonha, só o meu filho é que vai com o passo certo. E assim se comprazem apostrofando, apostrofando, apostrofando sempre, numa sobranceria tonta. Ora, os problemas não podem ser equacionados da forma que o fazem estas pessoas, por mais bem intencionadas que sejam e mais convictas que estejam. Não. Há que reconhecer o papel inestimável, insubstituível e insuperável dos homens de ciência; dos homens de ciência honestos, que são felizmente a maior parte dos investigadores académicos. É no mínimo uma tontaria e uma arrogância estéril falar-se da Ciência utilizando um tom pejorativo e dizer-se: «ciência oficial», como algo de insano ou de maldito. Se os senhores ocultistas acham que a ciência vai mal, porque não invadem as universidades, os laboratórios, os institutos e demais oficialidades da produção de conhecimentos credenciados e não revolucionam daí, das cátedras conquistadas, todo o saber? Será que não lhes agrada estudar, investigar e pôr à prova as conclusões a que cheguem? Sem querermos confundir qualidade com quantidade, nem objectividade com subjectividade, a verdade é que os grandes e verdadeiros ocultistas foram no passado, e são-no hoje também, homens de ciência de gabarito e neste campo ¾ em ambos os campos mesmo ¾ reconhecidos pelo seu labor e pelos contributos que trouxeram ao progresso humano. Os perigos que correram e as contrariedades que tiveram quase sempre, não se originaram em razões de ciência, mas de ignorância. Não é, Galileu? Pois bem, aqui apelamos e vivamente aconselhamos a pôr no devido lugar as conquistas da ciência e a aferir determinados convencimentos mágicos, ocultistas, etc. pelos métodos e pelos critérios já consagrados ¾ que são seguros e profícuos ¾ da desprezada «ciência oficial», tão desprezada pelos cábulas e pelos que presumem ter nascido ensinados. Mas cuidado! Sem prejuízo de dar a César o que é de César, isto é, a dogmática para a religião, o preconceito para a superstição, a subjectividade para o psiquismo e a objectividade para a ciência. Assim nos entenderemos. Palrar, fica para as pegas e para os papagaios, que repetem vezes sem conta o que não entendem nem nunca entenderão. ABDUL CADRE
Escrito por Abdul Cadre às 10h08
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O CULTO DO OCULTO
Abre-se o jornal e são páginas inteiras de anúncios prometendo este mundo e o outro. Desde a promessa de sermos pagos a peso de oiro «colocando circulares em envelopes» à cura de doenças incuráveis, passando pelas ofertas de emprego em «relações públicas só para senhoras» vale tudo, mesmo tirar olhos. Deste despudor, os anúncios mais curiosos, que mereceriam mesmo um estudo sociológico, são os que se prendem com o que comummente é tomado como ocultismo. Aqui oferecem-se serviços vários, como «amarrações» e «desamarrações», alívios de «encosto», «êxito nos negócios», «quebra de mau-olhado» e toda uma panóplia de tontices. Usando os mais pomposos títulos, que vão de «Grande Sábio» a «professor-doutor» nas mais abracadabrantes artes, passando pelo simples feiticeiro ou pela mais comum vidente, alguns anunciantes chegam ao desplante de se dizerem detentores de «poderes absolutos». Estes falsos ocultistas, mas verdadeiros caçadores de desprevenidos e de crédulos, exploram medos, fraquezas, ingenuidades e estados de necessidade, cavalgando a onda moderna de apetências pelo exótico que a sociedade «pragmática» provoca como contraponto. Quem se dedique ao estudo sério dos fenómenos paranormais arrisca-se a ser confundido com esta gente. Somado a tudo isto, aparece-nos uma comunicação social ávida de audiências que, sabendo que o que mais vende é a excitação, pega nas emoções e espreme-as até à secura. Informar é coisa difícil, que exige muita busca e tem poucos interessados no produto final. O que dá mesmo é excitar. E o que se diga aqui em relação ao ocultismo é aplicável, mutatis mutandis, a tudo o mais e em particular ao fenómeno dito das seitas. Brrr! que só o nome arrepia! Depois do acto simbólico que foi o derrube do muro de Berlim, a tendência ecuménica para o totalitarismo mental e a estandardização do mundo agravou-se de forma marcadamente patológica, pelo que o aparecimento de anticorpos era inevitável. Eis que a sanidade do mundo se assegura com estes furúnculos e estes antrazes. Mas é necessário todavia que, em prol duma informação que contrarie a deformação comum e a leviandade geral, se coloquem tracinhos nos «ás», para que não pareçam «vês» e nos «agás», para que não pareçam «is». Umbanda, Candomblé, Vodu, por exemplo, são cultos que, muito pela rama e entre nuvens, a televisão, a imprensa e o cinema gostam de aflorar de quando em vez para servir, de modo aparentemente liberal, como pequenas doses inócuas de mistério a um público de curiosidade doentia, que não pretende ser informado, mas que lhe façam pele de galinha. A palavra ocultismo parece ter sido usada pela primeira vez, com o significado que hoje se lhe dá, em 1850, pelo mago parisiense Eliphas Lévi, mas o que é certo e fora de dúvidas é que o acervo de conhecimentos, práticas e crenças que, merecida ou imerecidamente, se apresentam etiquetadas como «ciências ocultas», bem vistas as coisas, para além de constituírem marcas indeléveis sulcadas fundo no inconsciente da humanidade, foram no passado mais recente da História conhecida a gema do ovo donde eclodiu toda a curiosidade científica, e não há ciência que apague ou disfarce o que em boa verdade lhe foi berço e lhe é substrato. Quando se diz «oculto», vem imediatamente à mente que se trata de algo de secreto, que não pode ser divulgado, que repugna divulgar. Vulgarmente, usam-se indiferentemente os termos ocultismo e esoterismo e há até experts na matéria que afirmam serem os mesmos sinónimos. À parte o velho cliché de não haver sinónimos perfeitos, a verdade é que há uma diferença bem significativa: quando dizemos ocultismo, fazemos sobressair a aceitação pacífica das práticas mais ou menos secretas que nos foram legadas pelas antigas escolas de mistérios; quando dizemos esoterismo, queremos relevar o valor dessas mesmas práticas, a exequibilidade dos seus pressupostos teóricos sob os pontos de vista filosófico, científico e religioso. Digamos que, no ocultismo, predomina a dogmática, enquanto no esoterismo prevalece a teoria do conhecimento. Em ambos os casos, todavia, o carácter é, no mínimo, restrito. Nunca é de mais pôr em evidência, por mais banalizado que esteja o exemplo, o contraste que adrede se faz entre exoterismo e esoterismo, significando o primeiro termo o uso público das «revelações» religiosas, dos rituais e dos mistérios e o segundo a reserva dos segredos e das «verdades» dos mesmos, por não poderem ser dadas ao grande público, que inevitavelmente as aviltaria pelo mau uso e perversão do entendimento. Tudo isto deriva da ideia de que a humanidade primitiva, ou antes, o homem da «idade de oiro» possuiria o conhecimento directo e inocente dos princípios fundamentais. O desenvolvimento da mente e o primado da razão acabaram com a inocência e, quanto fora outorga natural advinda do alto, tornou-se então objecto de conquista. A separatividade (o espaço) pela queda e o esquecimento pelo tempo criaram a obscuridade. O conhecimento original precisou, desta forma, de ser preservado por ilhas de resistência. Esclarecidas as diferenças e até avançadas sugestões para além do simples esclarecimento, importa salientar também o que há de comum entre ocultismo, esoterismo, exoterismo, religião, ciência secreta e escolas de mistérios: todas estas realidades implicam a crença no sobrenatural. A divisão faz-se quanto ao carácter secreto ou não, isto é, entre o que é esotérico e o que é exotérico. Por fim, fique a ideia de que o ocultismo não é a verdadeira ciência espiritual, dado que sob o seu manto se oculta o Bem e se oculta o Mal; se oculta a Verdade e a Vida, mas também as contrafacções destas, que são o engano e a não-Vida. Todas as portas são a um só tempo de entrada e de saída. É utilizando o livre-arbítrio que se acede à Luz, ou se é dissolvido na Treva. Os caminhos do ocultismo não são isentos de perigo.
ABDUL CADRE
Escrito por Abdul Cadre às 10h05
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A PROPÓSITO DE REENCARNAÇÃO
«A LÓGICA DA REENCARNAÇÃO “A MAIOR DE TODAS AS IGNORÂNCIAS É REJEITAR UMA COISA SOBRE A QUAL VOCÊ NADA SABE." H. JACKSON BROWN » Conforme prometido, aqui vai alguma coisa sobre a lógica da batata-doce. O PPS que andamos a receber com a epígrafe aqui reproduzida, e que se encontra também em http://www.slideboom.com/presentations/141203, virá de pessoas cheiinhas de boas intenções, mas bem sabemos que é de tais intenções que se enche o inferno. É louvável que quem saiba queira ensinar os ignorantes, desde que tenha sempre presente que ignorantes somos todos nós; que ninguém pode saber tudo. Aliás, não existe ignorância em absoluto, já que o mais ignorante com que nos cruzemos saberá sempre alguma coisa que desconhecemos. A ignorância, tal como o saber, anda por aí e cada um de nós colhe a parte que lhe cabe de acordo com o esforço e o merecimento. O grande problema do saber é que por mais que se saiba será sempre ainda mais aquilo que se não sabe. É como enchermos um balão: por mais ar que se lhe meta, do lado de fora fica sempre mais. POR QUE UTILIZAR A LÓGICA É MUITO COMUM TODOS OS DIAS OUVIRMOS ALGUÉM FALAR QUE ALGUMA COISA É "LÓGICA" OU "ILÓGICA“. PORÉM, POUQUÍSSIMAS PESSOAS SABEM FAZER ISSO COM EMBASAMENTO. A LÓGICA É A ÚNICA FERRAMENTA QUE PODE NOS ORIENTAR EM DIRECÇÃO À VERDADE, OU O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DELA SEM A LÓGICA, FICAMOS REFÉNS DOS "DONOS DA VERDADE", DOS DOGMAS ABSOLUTOS QUE NÃO PODEM JAMAIS SER QUESTIONADOS.
Escrito por Abdul Cadre às 18h34
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O escritor norte-americano H. Jackson Brown, referido no PPS como Brownk, deve ter resolvido todos os problemas da vida, já que escreveu uma coisa do tipo LIVRO DE INSTRUÇÕES PARA A VIDA. Sorte a dele e de quem o segue porque acredita na pertinência das suas descobertas. Podia era não nos querer reduzir à nossa insignificância atirando-nos com o Aristóteles à cabeça. É bem possível que ele tenha razão quando diz que «a maior de todas as ignorâncias é rejeitarmos uma coisa sobre a qual nada sabemos», mas eu penso que haverá ignorâncias maiores. Depois, o contrário do anexim proposto, resultaria em aceitarmos tudo e todas as coisas só para não parecermos ignorantes, ou aceitarmos algo carregadinho de lógica, mas falso. Por exemplo: é lógico e mais do que lógico, já que é o que os nossos olhos vêem, o Sol andar à volta da Terra, mas tal é falso, verdadeiro é o que não tem qualquer lógica e que contraria o nosso olhar: a Terra é que anda à volta do Sol. Azar para o Aristóteles. Mas tem mais: todas as descobertas da humanidade, todo o progresso humano tem resultado não da lógica (nem da ilógica, evidentemente) mas do inusitado e do imprevisível. Se nos servirmos apenas da lógica caminharemos inexoravelmente num espaço circular, repetitivo como quem se perde numa floresta e caminha até à exaustão sobre os passos já dados. Zenão soube disso bem cedo e o seu famosos paradoxo de Aquiles e a tartaruga ilustra bem a fragilidade da lógica. É de lógica que se servem os teóricos conspiracionistas. Há gente que usa tanto a lógica que despreza todos os factos que possam pôr em causa os seus ardilosos exercícios de lógica que visam submeter o outro à ideia tida como certa. O que é que a lógica tem a ver com Deus ou com a reencarnação? É tão lógico existir Deus como não existir. Os que acreditam adoram chamar ignorantes aos que não acreditam e vice versa. Somos todos ignorantes, é o que é. «ANÁLISE LÓGICA DEUS É JUSTO? RESPOSTA: SIM. TODOS AQUELES QUE ACREDITAM NA EXISTÊNCIA DE UM SER CRIADOR DE TODAS AS COISAS, ADMITEM QUE ELE É PERFEITO E POSSUI TODAS AS VIRTUDES. SERIA ILÓGICO IMAGINAR DEUS SUJEITO ÀS NOSSAS IMPERFEIÇÕES. PORTANTO, SE DEUS É PERFEITO, É, ACIMA DE TUDO, JUSTO. OBS: JUSTIÇA É "A VIRTUDE DE DAR A CADA UM AQUILO QUE É SEU". (DICIONÁRIO AURÉLIO) PREMISSA 1: DEUS É JUSTO» Repararam no truque de «lógica» do catequizador? Os que acreditam em Deus estabelecem decretos e a partir daí faz-se a lógica, atribuem-se qualidades à invenção decretada. E como há uns indivíduos que atingiram a verdade – ou porque «sabem» que Deus existe ou porque «sabem» que Deus não existe – pimba, desatam a converter os ignaros de lógica em punho, como antes se fazia de espada em riste e fogueira pronta. É muito difícil criticar os que julgam ser crentes repetindo slogans, pois que se sentem ofendidos e atiram-nos à cabeça com os livros que lhes ensinaram a chamar sagrados, a que chamam muitas vezes a palavra de Deus. Aqui o curioso é que em caso de dois sagrados distintos que se encontrem em contradição se conclui imediatamente que o verdadeiro é aquele que confirma o nosso preconceito. A deficiência de espírito crítico pode servir a crença e a sacristia, mas diminui com certeza a capacidade de ter fé e o aperfeiçoamento espiritual. Afirmar que Deus é justo para a seguir dizer que não pode por isso ser injusto é brincar com as palavras. Faz-me lembrar uma senhora do jetset que, numa entrevista televisiva, dizia que estar vivo é o contrário de estar morto. Eu também gosto de brincar com as palavras. Vejamos: dizer que Deus pode fazer tudo porque é omnipotente permite-nos dizer que então pode fazer o mal. Se alguém disser que não pode, então não é omnipotente. Ora, se não for capaz de fazer o mal e não sendo portanto omnipotente não pode ser Deus; se poder fazer o mal não pode ser bom. Etc., etc., etc. Ou será que aqui já a lógica não serve para alcançar a verdade? Escamotear que a lógica é apenas um exercício da razão visando eliminar as contradições internos de um dado argumento e não o recurso divinal de se encontrar a verdade é no mínimo batota. A lógica diz-nos que um argumento está bem organizado, não nos diz que ele constitui a verdade. «ANÁLISE LÓGICA 2. SERIA JUSTO IMPOR UM SOFRIMENTO A ALGUÉM SEM QUE ESTE TENHA MERECIDO TAL SOFRIMENTO? RESPOSTA: NÃO. TAL AÇÃO VAI DE ENCONTRO AO PRÓPRIO CONCEITO DE JUSTIÇA, VISTO ACIMA. PREMISSA 2: NÃO É JUSTO IMPOR UM SOFRIMENTO A UM INOCENTE». ... ... ... «DEUS NÃO PODE SER JUSTO E COMETER INJUSTIÇAS AO MESMO TEMPO! SE EXISTISSE APENAS UMA VIDA, ENTÃO DEUS ESTARIA IMPONDO A ALGUNS, DESDE O NASCIMENTO, SOFRIMENTOS TERRÍVEIS, SEM QUE OS MESMOS TENHAM MERECIDO. DEUS ESTARIA, ASSIM, SENDO INJUSTO.» ... ... ... ... «POR QUE ALGUMAS PESSOAS JÁ NASCEM DEFEITUOSAS OU DOENTES E OUTRAS NÃO? SERIA JUSTO QUE DEUS FIZESSE PESSOAS SOFREREM, DESDE O NASCIMENTO, POR ALGO QUE ELAS NÃO FIZERAM, OU PELO QUE OUTRAS PESSOAS FIZERAM? »
Escrito por Abdul Cadre às 18h33
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A argumentação contida no PPS com a intenção de nos converter ao dogma reencarnacionista, que repudia outros dogmas, teria em mim o efeito contrário, se eu não medisse a possibilidade da reencarnação pelas leis da física e particularmente pelas da electricidade, sem esquecer a biologia. Pelas declarações dos crentes eu não creio, descreio. Vamos ao perigo do merecimento. Um tipo mata outro. Deve concluir-se que o assassinado estava a pedi-las, merecia, era o seu fado. Teria nascido para ser assassinado conforme outros nascem para cair da janela do 12º andar. Então, tal como o empreiteiro do prédio não tem qualquer culpa, ao assassino igualmente nenhuma culpa cabe, que é esta a lógica, por exemplo, da lenda de Judas Iscariote. São a mão de Deus a dar a cada um segundo o seu merecimento. Como Deus, que se saiba, não tem mãos, todos nós somos seus agentes. Claro, pode-se introduzir aqui mais um elemento, um deus do mal e inocentamos Deus – o do bem e da justiça – através da nossa imensa inteligência e imaginação. Depois, essa crença de Deus a dar coisas é algo que nos faz lembrar a sopa dos pobres, um acreditar no divino como coisa de caixa de previdência. Talvez fosse conveniente uma leitura do Bhagavad-Gita para se compreenderem outras lógicas, aquela, por exemplo, de os bons irem para o inferno e os maus para o céu. E coisa interessante: é que naquele texto, o que possa parecer um paradoxo, tem toda a lógica. Aliás, constitui uma lógica muito difícil de refutar. Eu admito a reencarnação, mas não acho que as razões que me levam a tornar lógica, coerente e equilibrada tal aceitação sejam superiores às razões que assistem outros que pensem opostamente. E se critico o PPS a que nos vimos referindo é apenas pelo seu tom doutrinal de verdade última e acabada. No que concerne ao que é uso dizer-se de vida após a morte (ou vida após a vida), digo constantemente aos meus amigos que importa mais ouvir o advogado do diabo do que ler aquilo que é chuva no molhado. É por isso que tantas vezes aconselho a leitura de algo de exemplar DEPROFUNDIS, VALSA LENTA, do falecido escritor português José Cardoso Pires, materialista e ateu até à morte, apesar da experiência porque passou num dos seus comas. É dessa experiência que nos fala no referido livro. Sendo adepto do mais estrito materialismo – do morre-se e tudo acaba – as suas descrições da noite escura do seu coma dão muito que pensar. Talvez possamos vir a falar disso, mas por agora fica o desafio aos curiosos que não sofram da síndroma do dogma de uma nota só. O que vou dizer a seguir não tem quaisquer propósitos de catequização; tê-los, seria uma contradição face à minha crítica ao proselitismo kardecista do PPS. Assim, vou escrever a propósito da reencarnação, mas não de imaginados ou acreditados propósitos da mesma. Não me cabe catequizar ninguém, apenas me disponho a apresentar perspectivas pessoais e indicar fontes que considere interessantes. Cingindo-me, então, a escrever «a propósito», começaria por dizer que não existe um conceito pacífico e unívoco do que seja a reencarnação, tal como não existe para Deus. Em ambos os casos, encontraremos sempre quem negue e quem afirme, os que acreditam e os que não acreditam, sem cuidarem das distinções, como se tudo estivesse claramente definido. Quem acredite numa ou na outra coisa, ou em ambas, isto é, Deus e reencarnação, não poderá provar nem a forma como acredita nem muito menos explicá-la convincentemente, mormente à luz da ciência. Todavia, mesmo nos meandros da investigação submetida aos critérios da ciência, crescem os indícios de que a consciência sobrevive à morte física. Neste aspecto, há uma obra de excepcional interesse, intitulada «O que Acontece Quando Morremos», da autoria do Dr. S. Parnia, obra que vem na linha dos trabalhos publicados pelo Dr. Raymond Moody, v.g. «A Vida Depois da Vida». Pode dizer-se que o interesse da ciência – o interesse académico – pelas possibilidades da sobrevivência da consciência se vem consolidando desde há mais de trinta anos, embora a nada de conclusivo esse interesse tenha chegado, permanecendo o presumido fenómeno da reencarnação confinado à metafísica. Neste campo, as diversas posições a respeito envolvem muita controvérsia. As religiões em geral defendem a sobrevivência da consciência à morte física, mas nem todas aceitam a reencarnação, havendo até as que veementemente condenam tal crença, nem sempre por simples razões teológicas e estritamente doutrinais. De qualquer forma, há duas perguntas fundamentais que se podem e devem fazer: Primus – O que é a reencarnação? Secundus – Aceitando-a, o que é que reencarna?
Escrito por Abdul Cadre às 18h30
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Do meu ponto de vista, os livros populares ditos de divulgação esotérica – eu chamar-lhes-ia de confusão esotérica –, nomeadamente a literatura light inserida no fenómeno new age, têm espalhado um ror de crenças muto aceites, apesar de pouco aceitáveis, quer sob o ponto de vista metafísico, quer no âmbito religioso mais geral, quer especialmente e por maioria de razão no que respeita à Tradição. A facilidade com que se leva as pessoas a acreditar que se morre e se nasce como quem simplesmente muda de camisa, chega a ser chocante, podendo levar os mais desprevenidos à diabolização da carne e ao desprezo doentio do corpo. Este que aqui escreve está convencido de que, quando morrer, morre definitivamente, por mais que quem o manda escrever e lhe orienta a mão lhe sobreviva e vá orientar um outro personagem, a quem lembrará ou não o que o tempo consumiu. No respeito a esta lógica, quiçá desagradável para muitas crenças profundamente instaladas, creiam que ele – que sou eu – não foi numa «outra vida» o Napoleão nem o D. Afonso Henriques... Se eu me recordar de ter sido uma ou outra destas figuras históricas, não será por eu ser delas uma reencarnação, mas por mor de um outro fenómeno menos divulgado, que faz com que tudo esteja em tudo, de que poderemos falar em outra ocasião. E, no entanto, creio haver em mim um princípio individualizado, que se vem formando há milénios, servindo-se de diversos corpos físicos e constituindo-se naquilo que os rosacruzes chamam personalidade-alma (ou personalidade da alma). Se esta for a realidade, então, neste momento, a minha personalidade-alma, que é uma espécie de contra-regra no meu teatro particular, ao serviço da alma humana, é uma súmula, uma resultante, um compósito de muitas vivências (não apenas uma). É por esta razão que eu digo que não fui esta ou aquela personalidade conhecida, nem aqueloutra desconhecida e afirmo muitas vezes, para desespero dos crentes, que eu não tenho alma, é a alma que me tem a mim, sendo minha obrigação reflecti-la quanto possa. O mais que possa, todavia, nunca é quanto devo. Mas podemos ver a reencarnação numa perspectiva mais imediata e mais restrita. Submetamos, porém, tal perspectiva aos seguintes pressupostos: 1) – A vida humana manifesta os dois opostos fundamentais integrantes do seu processo de renovação permanente: NASCER e MORRER. 2) – Nascer e morrer são transitoriedades, um processo pelo qual a consciência navega entre planos e assume estados evolutivos do ser. 3) – A morte caracteriza-se pela desagregação material e pelo esquecimento. Postos estes quesitos, aceitemos ainda que nascer envolve morrer-se um pouco em cada dia, como inevitabilidade, e reencarnar a cada minuto, como assumpção. Viver plenamente é ter o entusiasmo da assumpção, dado que o contrário fará de nós apenas cadáveres adiados que procriam, como diria Pessoa. Entusiasmo é uma palavra de origem grega – «enthousiasmós –, que quer dizer inspiração divina...
Escrito por Abdul Cadre às 18h29
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 · A vida e a morte não são opostos, o oposto da morte é o nascimento; nascer e morrer são etapas da vida. · De nascer temos a experiência; de morrer, apenas a temida expectativa, por vermos morrer os outros à nossa volta. · De ambas as coisas, uma profunda e comprovada certeza: ninguém nasce por nós e ninguém morre por nós; e isto é tão certo para aqueles que acreditam que a morte é o fim de todas as dores e de todas as alegrias, a aniquilação total da nossa existência, como para os que acreditam na reencarnação e na vida eterna. Os espiritistas acreditam que os mortos interagem com os vivos. A superstição comum vai ainda mais longe. Os rosacruzes não pensam assim. Os estudos parapsicológicos negam as crenças espíritas e repudiam a superstição. Posto isto, convém que se diga que o invisível e o visível se interpenetram, constituindo uma única realidade. Com os nossos olhos físicos não podemos ver o invisível, pois se o víssemos, então ele não seria invisível. Certo? Pois bem, reciprocamente, os seres sem consistência física não podem ver este nosso mundo material de três dimensões, falta-lhes o órgão que tal possibilita: a visão, os olhos físicos. A questão que muita gente põe dos «fantasmas» refere-se a uma fenomenologia complexa, sendo que tais visões são invariavelmente devidas aos vivos, quer por criação mental do visionário (ou de terceiros), quer por projecção psíquica de outrem. Para o pensamento dominante nos departamentos de Parapsicologia das universidades mais conceituadas que albergam tais departamentos, o próprio facto do indivíduo que diz ter sido noutra encarnação este ou aquele personagem é tomado como um fenómeno de identificação, uma dissociação psíquica cabalmente enquadrável e explicável pela Psicanálise. Nesta linha de pensamento, até o fenómeno da Projecção Psíquica, que se popularizou com o nome de Viagem Astral se diz ser uma técnica de imaginação criativa, útil sobretudo em psicoterapia, onde toma o nome de VIDA IMAGÉTICA CATATÓNICA. Os chamados encostos mais não são que pensamentos-formas (ou elementares) produzidos pelos nossos medos e pelas nossas angústias, proporcionados, alimentados e incrementados muitas vezes (ou as mais das vezes) pelos ambientes que frequentamos. O cultivo de pensamentos positivos é o melhor remédio para os maiores tormentos e assombrações. Parece-me que tudo o que aqui escrevi tem toda a lógica, mas não estou certo que seja irrefutável. Ou seja, é um desafio para a reflexão, não uma lição ou dogma para aceitação de quem se reveja nas explicações aventadas. Do ponto de vista esotérico, que aliás não é unívoco, podemos tomar como boas as hipóteses que para nós mais sentido façam, que tenham eco interior, salvaguardando, porém, que não devem entrar no reino do absurdo. Traçá-las sobre o pensamento Tradicional e apurar os caminhos de busca com o auxílio de organizações credíveis, estamos convictos que é a melhor forma, ou a forma por excelência. Todavia, estando o mundo tão impregnado de individualismo, sabemos como é difícil encontrar escolas credíveis, pois este é um tempo em que sobram os que se julgam mestres e escasseiam os buscadores humildes e perseverantes que se querem estudantes permanentes. Do ponto de vista do senso comum, que serve a todos, sejam esoteristas ou não, crentes e incréus, podemos interrogar o imenso e inultrapassável Livro do Mundo e perceber pelas leis da Natureza que toda a transformação a que chamamos morte tem uma finalidade precisa: fazer com que o velho dê lugar ao novo. Porém – e não há aqui qualquer paradoxo – o novo é o velho que passou por um processo de catarse. Então, pergunta-se, e a evolução? Deixemos de lado, a evolução, retendo apenas que na natureza bruta ela é lenta como os milénios e nas sociedades humanas veloz como as gerações. Podemos olhar para as árvores e julgá-las eternas, ver germinar as sementes e chamar a isso renascimento. Então, à morte daquilo que envelheceu chamaremos um bem, o bem da perpetuação biológica da espécie, ou a reencarnação do ADN. E também assim no homem, pela procriação. Aqui, podemos pensar que se há reencarnação é apenas na semente dos nossos filhos. E na família, que sobrevive ao indivíduo. E na cidade, que sobrevive às famílias. Etc. E em cada um de nós, ao renovarmos totalmente as nossas células ciclicamente, num processo reencarnacionista contínuo que nos faz ser outro em cada dia, sendo todavia o mesmo. Assim, o que é que nos dá esta noção de sermos o mesmo, quando no processo de maturação toda a criança que um dia fomos fica só lembrança? Quando apelamos ao senso comum, não pretendemos que por ele nos venha a revelação de qualquer segredo, mas sim para que aquilo que possa ser segredo faça algum sentido. Mas não podemos ficar apenas por aí, é preciso ousar ir mais longe dentro de nós, sem cedências nem ao medo nem à necessidade. Tal como diria a sabedoria grega, conhecermo-nos a nós próprios abre-nos a visão para conhecer o mundo. Conhecer o mundo, porém, não é ter certificado de profeta ou direito de impor-lhe as nossas congeminações. E fiquem com Fernando Pessoa: «A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto. Se escuto, eu oiço a passada Existir como eu existo.»
Escrito por Abdul Cadre às 18h24
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CRENÇAS
Pode dizer-se que todas (ou praticamente todas) as religiões postulam a imortalidade da alma. Com excepção do budismo, do hinduísmo e de alguns cultos menores a tónica é de que as almas preexistem a uma única encarnação à qual sobrevivem, sujeitando-se ao prémio ou ao castigo que a sua deambulação terrena mereça, de acordo com o comportamento havido. Budismo e Hinduísmo são religiões claramente reencarnacionistas. No seio do cristianismo, a reencarnação foi considerada heresia pelo concílio de Constantinopla, no ano 533 da nossa era. No seu lugar encontra-se a crença na ressurreição dos corpos, após o Juízo Final Admitir-se a Reencarnação, o Carma e a possibilidade de conhecer vidas passadas resulta de se acreditar em, pelo menos, uma das seguintes hipóteses (ou outras que destas derivem): 1. – Somos um acumular de vidas sucessivas e cada um dos nossos nascimentos vai enriquecendo o acervo dos nossos conhecimentos, que se guarda no mais profundo da nossa mente superior. 2. – Vivemos vidas simultâneas, todas as nossas vidas num só momento, mas em focalizações diferentes, iludidos pela prisão do espaço-tempo. 3. – Recordar vidas passadas é consultar os registos akásicos, o inconsciente colectivo, ou os Campos Morfogenéticos, de Sheldrake. 4. – Aquilo a que chamamos Alma é apenas uma centelha da Alma Maior. Esta Alma Maior cria personagens que desempenham o grande enredo da Vida.
Escrito por Abdul Cadre às 18h21
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AUTO-REALZAÇÃO
Queridos amigos, Ninguém pode assegurar a outrem a Auto-Realização sem esforço, nem o êxito seguro por um toque de varinha de condão. Aqui não há outorga e pela própria significação do termo se vê claramente tratar-se de coisa do foro íntimo de cada um. Ninguém respira por interposta pessoa, nem se é peregrino por representação. Talvez se possa falar de outorga na Graça e na Iluminação, mas isto são estados diferentes do ser. Sobretudo, é preciso que se não confunda Auto-Realização com Iluminação, por mais que se creia que esta é a coroa daquela. Auto-Realização é um processo aberto e perfeitamente acessível ao mais comum dos mortais, com uma ressalva: exige vontade e autodisciplina. Se reserva existe, prende-se com o desejo autêntico e profundo de ultrapassar mundanidades. Na Auto-Realização pergunta-se à Vida que planos tem ela para nós, o que é que ela espera de nós e cumpre-se escrupulosamente quanto se lhe prometa. Mas, por mais que se percorram e realizem os caminhos apontados, por mais que se cumpram as promessas feitas e outras mais que se venham a fazer, por mais que se realizem metas de vida, se realize a parte ou se realize o todo, não fica assegurada a Iluminação, a não ser que a vida nos guarde esse destino, por pacto havido noutro tempo e noutro lugar. A Auto-Realização é a regra, é o caminho regular da realização do ser, é o percurso cujo término se não sabe. A Iluminação é a chegada sem se atender ao percurso. É a excepção, é o transcender das regras e dos percursos. Na Iluminação não se interroga a Vida, nem se lhe prometem pequenas realizações, ela simplesmente dispõe de nós completamente. Tudo o que de geral (ou particular) em cartas como esta dizemos, não é decreto de cátedra, mas conversa de quem preza a «vida conversável» e pretende contribuir para uma reflexão que habilite os nossos correspondentes a pôr em dúvida ideias feitas, procurar outras formas de conhecer, ensaiar novas atitudes, com vista à passagem do mundo do simples estar para o mundo de conscientemente ser. É nosso entendimento que tal propósito não se consegue acendendo velas (um milhão que seja), ou queimando incenso; não se consegue porque nos sentamos em lótus e recitamos mantras. Não. Isto é o acessório, o fundamental são os passos seguros, e o primeiro passo seguro é ganhar o ar menino dos espantos, de que nos fala Jibrail ben-Jamin, o que implica abertura de espírito, isto é, a capacidade de banir da nossa mente os preconceitos – todos os preconceitos – e analisar tudo sem emoção, sem desejo, sem nada querer provar e tudo querer saber, porque, nesta vida, todos somos estudantes. Aquele gnoma sufii que diz que devemos estar no mundo sem ser do mundo, é sem dúvida a melhor divisa para um autêntico e sincero buscador e deve ser motivo permanente de meditação. Da Vida somos filhos e da Vida somos amantes. Ela ama-nos com o fidelíssimo amor de esposa e mãe e não nos trai. – Nunca nos trai! – Tudo o que faça visa o nosso bem, é por nós, não contra nós, mesmo quando a dor parece querer demonstrar-nos o contrário. Dor e riso são sinais. É preciso estar atento aos sinais da vida – a todos os sinais – porque ela é a grande mestra da realização do ser. Isto implica não nos iludirmos com falsos sinais. Não nos iludirmos é o caminho seguro para não sofrermos desilusões. Toda a ilusão é fruto de pedirmos às coisas o que as coisas não podem dar. Quem é que, semeando abóboras, espera colher melões? Querer distinguir a cada momento o real do aparente, o verdadeiro do ilusório, o fundamental do acessório, o permanente do fortuito, eis a atitude certa do amigo do saber. Compreender que tudo está em tudo e que em todas as coisas se pode ver o bem e se pode ver o mal, não no critério dessas mesmas coisas, mas pela subjectividade do nosso olhar superficial e desatento, eis já o despertar para uma realidade maior, para uma visão univérsica dos fenómenos e da Vida. Esta compreensão transmuta em força e em discernimento as fraquezas da subjectividade e da desatenção e dá-nos o olhar profundo que sabe do contrário das coisas e da sua génese. Pax Profundis Abdul Cadre
Escrito por Abdul Cadre às 20h44
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A PROPÓSITO DE CULTURA
«... A cultura consiste em saber que não se sabe quase coisa nenhuma. Nunca.» Agostinho da Silva – 1906-1994 Dado ser muito comum, quando se fala de cultura, realçar os aspectos intelectuais e artísticos da vida, opostos aos puramente materiais ou técnicos, podemos fugir a tal restrição optando por uma escolha conceptual mais ampla e mais abrangente se dissermos que cultura é todo o conhecimento da humanidade, conhecimento este susceptível de ser estudado pelas particularidades deste ou daquele grupo social, deste ou daquele povo num dado momento ou no seu desenvolvimento histórico; confrontar padrões de cultura, etc. De qualquer modo, terá sempre algum interesse falar-se de perspectivas de análise do conceito de cultura, mormente de cultura popular, cultura de massas vs cultura de elites, etc., que não cabe agora desenvolver. Primitivamente, cultura era a da terra, a lavoura. Era o tempo em que se cultivava a terra e se cultuavam os deuses. Hoje, no seu sentido mais restrito, isto é, no seu sentido elitista, quando se fala de cultura estamos a designar a erudição e a produção académica. O Conceito de cultura, como se entende hoje, seja da forma mais ampla, seja da mais restrita, não é tão antigo quanto se pensa. No século XI, cultura designava um pedaço de terra trabalhada para produzir vegetais; no século XVI, com os humanistas, é que nos vamos deparar com o seu sentido figurativo de cultura do espírito, porque também o espírito, esse mundo especulativo das concepções simbólicas, era um campo aberto ao cultivo. Assente que a génese da associação de cultura com saber se localiza na Renascença, a sua verdadeira fixação semântica dá-se no século XVIII, quando cultivar as ciências, as letras e as artes se torna o símbolo por excelência da FILOSOFIA DAS LUZES. Hobbes designava por cultura o trabalho de educação do espírito, em particular durante a infância. Neste contexto, entende-se que o homem cultivado é aquele que tem gosto e opinião, requinte e boas maneiras. Nas paredes de Paris, durante os acontecimentos do Maio-68, podia ler-se: «A cultura é como a compota; quanto menos se tem, mais gala se faz dela». Menos jocoso e mais filosófico é o célebre aforismo de Édouard Herriot: «A cultura é aquilo que permanece no homem quando ele já esqueceu tudo o resto» Estas duas citações, que partem de concepções do mundo muito diferentes, contêm intrínseca e implicitamente a mesma crença de que cultura é algo que se cultiva, o que desemboca na própria etimologia da palavra e na génese do conceito. Harry Shaw, no seu Dicionário de Termos Literários (Ed. D. Quixote) diz-nos que CULTURA «...É a qualidade dum indivíduo ou duma sociedade que resulta o seu interesse ou da sua familiaridade em relação a tudo aquilo que geralmente se considera superior, nas letras, nas artes, na actividade científica e nos usos da sociedade... em linguagem sociológica, o termo cultura reporta-se à totalidade dos meios de existência criados por um grupo social e transmitidos de geração em geração» Na mesma entrada, citando o ensaísta, poeta e crítico inglês Mattew Arnold, acrescenta que «...É a nossa relação com tudo o que de melhor se tem dito e se tem conhecido neste mundo». Talvez possamos agora tomar com implícito que cultura é algo que se opõe a natura, formando uma unidade de contrários, e, assim, será tudo o que o homem acrescenta à natureza; as respostas que o indivíduo e o grupo dão aos desafios da vida e da sociedade. Utilitário ou lúdico, tudo aquilo que o homem cria a partir das suas necessidades (imediatas ou adquiridas) é cultura no seu sentido mais amplo. E se as plantas se prendem à terra pelas suas raízes, ligam-se os homens entre si pela cultura, ou, mais propriamente dito, pelos seus padrões de cultura. & DEFINIÇÕES DE VÁRIOS AUTORES: «A cultura é um todo complexo que inclui os conhecimentos, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade» E. B. Tylor – 1832-1917 «A cultura é a soma dos conhecimentos, das atitudes e dos modelos habituais de comportamento que têm em comum e que transmitem os membros de uma sociedade». R. Linton – 1893-1953 «A cultura é essa parte do meio ambiente que foi feita pelo homem» Melville J. Herskovits – 1895 -? «A ideia de cultura europeia é uma abstracção, o mesmo se passando com a de cultura própria a esta ou àquela tribo africana. Não existem se não seres humanos relacionados uns com os outros por uma série ilimitada de relações sociais». A. R. Radcliffe-Brown – 1881-1955 «As diferenças tradicionais das culturas humanas parecem, de muitos pontos de vista, maneiras diferentes, mas equivalentes, segundo as quais se pode descrever a experiência física». Niels Bohr – 1885 – 1962 «A cultura é tudo o que resta depois de se ter esquecido tudo o que se aprendeu». Selma Lagerlof – 1858 - 1940
Escrito por Abdul Cadre às 09h08
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POR TERRAS DO TEMPO E DA SAUDADE
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Recorta-se, em cartas geográficas recentes, como um triângulo de base virada ao Mar Vermelho, penetrando o Djibuti e o Sudão, espreitando a Somália pelo vértice alongado do sudoeste e tendo, para lá do estreito mar, a visão de sonho da costa oeste da Arábia Feliz, ou Iemen, em cujas montanhas, a norte de Sana, ao tempo dos templários, se iniciavam os cavaleiros de negro e branco que tinham no velho da montanha o seu mestre vivo.
Ex-província da Etiópia, do lendário Negus, chama-se Eritreia, tem o tamanho de Portugal e é um deserto pedregoso onde Portugal é verde e verde onde o nosso país o não é.
Aqui, onde as mulheres têm as faces doiradas e os homens, que deambulam sem cessar, são poetas e são filósofos que se aconselham com a natureza nos altos cumes, se situou a reino da bíblica Rainha de Sabá.
Má memória gravaram nas pedras e nas gentes das nove tribos turcos e jesuítas; marcas de alma, que são as línguas e são os credos, deixaram os muitos que aqui passaram ¾ em armas ou pacificamente ¾ e daí os muitos falares, que vão do árabe ao italiano, passando pelo aramaico (a presumida língua de pregação de Jesus), e a pluralidade religiosa, onde o islamismo e o cristianismo são preponderantes.
O feriado religioso não é nem o Domingo cristão nem o Sábado muçulmano, mas a Quarta-feira, onde é comum a partilha do pão entre os dirigentes das várias confissões cristãs e islâmicas.
Foi esta convivência pacífica ¾ que permite a existência de casamentos inter-religiosos ¾ que espantou ao tempo Pêro Vaz de Caminha e Cristóvão da Gama, quando por aqui andaram em busca do Prestes João.
E o mais estranho de tudo, nesta terra onde as pessoas preferem louvar a divindade ao ar livre, é que aqueles portugueses puderam assistir a missas católicas, celebradas por padres católicos, no interior de mesquitas e de igrejas coptas.
Escrito por Abdul Cadre às 19h31
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FALANDO DE DEUS PARA ACICATAR O DIABO
 Que incomodativos são os catequistas das escrituras de haver Deus!
Que incomadativos iguais são os catequistas das outras escrituras de não haver!
Que indecorosos são os que imaginam Deus à imagem e semelhança do Grande Ditador a quem aplaudem!
Que venais nos parecem os que negam Deus para melhor combaterem o Grande Ditador e os que lhe batem palmas!
Quatro exclamações sentidas para o desejo de dizer que uma das discussões mais ociosas que se pode ter é, de um lado, querer provar que Deus existe e do outro, o diametralmente oposto. Houve até um anarquista famoso que se deu ao luxo de publicar um opúsculo intitulado DOZE PROVAS DA INEXISATÊNCIA DE DEUS. A sua ideia, julgada definitiva, caiu rapidamente em desuso porque alguns padres perspicazes pegaram na coisa com jeito e deram-lhe a volta, pois que as teses que negavam serviam precisamente, quase sem tirar nem pôr, para afirmar.
Ao usar o termo discussão, estou a lembrar-me da sua etimologia, que significa sacudir. Tenha a árvore fruto que, bem sacudida, algum há-de cair; mas, se ela é apenas ornamental, caem folhas e mais nada. Quando dois dialogantes se sacodem ociosamente, o resultado é invariavelmente nulo e leva o estafado ponto final: ficas com a tua que eu fico com a minha, postergando-se o conversável. É assim, sempre que o umbigo se usa na testa. Desta forma, o crente olha o incréu com o pior olhar de atirar ao cão e o ateu põe-se em bicos dos pés para parecer mais alto do que a própria inteligência; empertigado, olha com comiseração o pobre imbecil que acaba de inventar ali em baixo, para sua própria glória mais acima.
Seria tão bom, entre os dois, plantar um racional para lhes fazer ver que ambos afirmam o que não provam e negam o que não sabem!
O resto é falar da batota dos argumentos. Por exemplo: pretender que os crentes, além de tontos, são ignorantes. Ora, tendo Einstein sido um crente é forçoso que se imagine um não-crente como um super-Einstein. Então, que venham as obras, que de paleio todos temos a nossa conta. Uma outra batota comum é usar-se e abusar-se da frase, não só descontextualizada, mas sobretudo amputada, atribuída a Marx de que «a religião é o ópio do povo». Para além do distinto filósofo não ter o monopólio da verdade, a frase não é assim. Corrija-se, pois: «Num mundo sem espírito a religião só pode ser o ópio do povo». Muda tudo, ou não muda? Mas explique-se: a religião -- qualquer religião -- é a tentativa mais ou menos conseguida de institucionalizar a espiritualidade e monopolizar as consciências, dado que as igrejas só podem afirmar-se pela exclusão e tendem a casar-se com o Estado, tornando-se por esta via parte integrante da superestrutura e um instrumento de dominação da classe possidente. Mas o que interessa aqui precisar e desmistificar é o ninho de confusões que se tem estabelecido entre religião e religiosidade com espiritualidade e uma coisa e outra com crença em Deus. Ora, há religiões ateias, v.g., o budismo (na sua génese) e o taoísmo (ainda hoje). Espiritualidade não é o estudo de Deus -- isso seria a Teodiceia -- mas sim dos fenómenos tidos por imateriais. Mas até nisto há que pôr reservas, pois muitos espiritualistas dão grande ênfase ao que disse Madame Blavatsky: «A matéria é espírito cristalizado; o espírito é matéria subtilizada». Da batota teísta sobressai a dos que sublinham as crenças que lhes dão jeito dizendo que se trata da palavra de Deus. Mas crença é isso mesmo: dar crédito a...
Crença vale para teístas e vale para ateístas!
Deste problema se esgueirou subtilmente o grande filósofo e matemático Bertrand Russel que, não acreditando na existência de Deus, nunca se afirmou ateu -- que isso seria uma forma de crença -- mas tão-só agnóstico!
Conheci um indivíduo que, para os militantes ateus, que se pelam por chamar obscurantistas aos crentes, seria com certeza um ignorante. Ele não seguia nenhuma religião em particular, embora fosse próximo do misticismo franciscano, do budismo e do shintoismo. Reflectindo sobre o grande enigma matemático, essa não-coisa que é o ponto, comparava-o com Deus: «Algo sem dimensão que desenhou toda a geometria conhecida...»
(A foto é de Isabel Lima e a árvore existe na Ilha do Sal, em Cabo Verde)
Escrito por Abdul Cadre às 18h14
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O CAMINHO DOS RIOS
Toda a conformação das águas, toda a coerência do rio vem-lhe das margens. É por estas que sabemos que o rio não é o mar e que este lhe é destino.
Margens e rio são dois opostos que mutuamente se justificam na irredutibilidade de duas inércias de sinal contrário: a do movimento e a da imobilidade. Movessem-se as margens e era o caos; parasse o rio e era o pântano...
Mas há margens e margens! Há as de areia, onde qualquer rio se esvai e esgota; há as de rocha firme, a empurrar as águas sempre mais além; e há até — tantas vezes! — apelos de ir ou de vir em aberturas de novos rios, sempre inventados pelas margens em que os nossos olhos acreditam. Mas no fim surge sempre a imensidão líquida de um destino comum de margens muito para além de todos os limites do olhar, aconchegando o anseio supremo de todos os rios cansados de serpentear.
Tomemos tudo isso como analogia para as sociedades humanas, cujo caudal segue, dada a aparente inércia do movimento, as rotas repetidas da conformação, enquanto as suas franjas, as suas margens, os seus marginais e toda a água que se afasta da corrente ousam caminhos outros — de areia ou rocha, pouco importa — com que a mole se horroriza, de que a plebe escarnece, como esconjuro para o medo de quanto contraria a rotina dos dias, que é o pântano insalubre das inércias consentidas.
Que incómodos são os profetas, as prostitutas, os sonhadores, os drogados, os poetas, os loucos, os sábios e tudo o mais que perturba a sonolência e não deixa que as águas se aquietem!
Para o bem e para o mal, é da água que transborda da corrente que se faz a cheia que rompe as margens, galga os diques e leva, muitas vezes, o rio a escolher um novo leito, onde mais uma vez as águas se conformam na coerência de novas margens e de novas inércias.
Todavia, a paisagem não voltará jamais a ser a mesma.
Escrito por Abdul Cadre às 15h39
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